Pilhas e pilhas de mensagens enviadas por Telex chegavam às mãos dos novos queridinhos dos brasileiros em Los Angeles todos os dias que antecederam a final do vôlei das Olimpíadas de 1984, nos Estados Unidos. Recados confiantes e muitas vezes apaixonados eram enviados aos jogadores da seleção e incentivavam o time a buscar a medalha de ouro, que vinha sendo encomendada e construída desde o dia em que aquela geração decidiu apostar no improvável. As conquistas dos anos anteriores e o respaldo da torcida aproximaram o sonho da realidade. Até demais. O ouro, que naquela altura já parecia nas mãos, escorregou. Foi parar no peito dos donos da casa. Já a prata, renegada em um primeiro momento por seus donos, fez nascer uma nova era do esporte brasileiro. Deu nome a uma geração responsável por desbravar um terreno ainda desconhecido, popularizou a modalidade no país e deixou um legado que perdura há 30 anos.
Aquele “3 a 0” inquestionável (parciais de 15/6, 15/6 e 15/7) foi como um soco no estômago para o time brasileiro. Solitário, Bernard tremulava a bandeira nacional tentando quebrar o clima de profunda tristeza que dominava o segundo degrau do pódio olímpico. Estava estampada no rosto dos seus companheiros a frustração de colocar no peito aquela prata que não refletia à altura os feitos conquistados nos últimos anos. A derrota para os Estados Unidos na decisão, naquele dia 11 de agosto de 1984, soou como um fracasso para os jogadores que, com talento, carisma e ousadia, fizeram despertar o interesse do povo brasileiro por um outro esporte tão diferente do futebol. Mal sabiam eles, no entanto, que dali em diante encheriam o peito de orgulho ao falar que fizeram parte da Geração de Prata, a responsável por abrir a contagem de medalhas olímpicas e por fomentar a cultura da modalidade no país.
- O pós-jogo foi uma tristeza muito grande. Para digerir, foi muito ruim. Mas teve um momento muito marcante no dia da final. Na hora que acabou, na hora do pódio, o Bernard começou a sacudir a Bandeira do Brasil. Acho que ali todo mundo começou a ver que conquistamos uma medalha olímpica, ali começou a cair a ficha de que nós tínhamos feito alguma coisa importante. E hoje, 30 anos depois, você olha para trás e reconhece que aquela medalha foi importante pelo processo. É extremamente vitorioso o voleibol brasileiro, várias medalhas olímpicas. Acho que aquela medalha de prata acabou sendo uma parte importante dessa história, foi um início importante para as gerações seguintes – avaliou Renan.
Cada “dia seguinte” desses 30 anos tratou de provar à Geração de Prata que ela ficaria marcada pelos momentos de glória e pelo ineditismo. O ouro perdido, claro, nunca seria esquecido. Aquela derrota para os americanos na decisão, depois da vitória na primeira fase, seria sempre lembrada com tristeza e frustração. A trilha deixada como legado e as medalhas que foram surgindo com as novas gerações, no entanto, sanaram qualquer dúvida sobre o peso positivo daquela conquista na história do vôlei brasileiro.
- O que eu digo sempre é que, depois dessa tristeza, esse dia passou a ser o mais importante de nossas vidas. Fora o futebol, o Brasil não tinha um outro esporte tão profissional. Hoje é muito profissional, e realmente nós demos os primeiros passos do amadorismo para o profissionalismo. Acho que essa foi a grande diferença dessa geração. Até hoje, depois de 30 anos, se conta histórias dessa geração, que pode ter ganho menos do que outras, mas nós fomos os pioneiros, fomos as cobaias de tudo isso que acontece até hoje. Hoje o Brasil é o primeiro do mundo no masculino, no feminino, na quadra, na praia... mas quem começou, sofreu no início e aproveitou, fomos nós – resumiu Marcus Vinícius Freire, hoje superintendente executivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
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