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O ator Marcelo Serrado disse a O Globo :
— Não vou fazer mais peças em teatros da prefeitura. Isso é uma medida populista, arbitrária, eleitoreira.
Ele se refere à recente resolução do secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, que estabelece meia-entrada para os moradores do Rio de Janeiro nos 56 espaços culturais municipais e o preço médio máximo dos ingressos em R$ 40. Sérgio Sá Leitão defende a medida :
— É uma notícia extremamente positiva para a imensa maioria da população. Democratiza o acesso aos equipamentos culturais da prefeitura, que têm seu sustento bancado pelo cidadão. Então, nada mais justo do que ele ter um benefício extra. Não é diferente do que os teatros privados fazem, dando descontos para clientes da Net (Teatro Net), da Vivo (Vivo Rio), da Oi (Oi Casa Grande). Só que a prefeitura está dando desconto para o carioca, que paga pela sustentação dos teatros.
Mas, para Jonas Klabin, responsável pela ocupação do Teatro Café Pequeno e produtor do musical “As mulheres de Grey Gardens”, dirigido por Wolf Maya e em cartaz na Sala Baden Powell, a decisão banaliza a meia-entrada e desvaloriza o trabalho do artista e a cultura.
Junior Perim, coordenador executivo da ONG Crescer e Viver, discorda :
— Vai ampliar a afluência de público, motivar pessoas que às vezes nunca foram ao teatro. Contribui para a formação de plateia. Cabe ao poder público fixar os preços médios máximos nos seus equipamentos. Isso deveria ser seguido pelo Estado e pelo governo federal.
Outros produtores, porém, acreditam que a medida vai penalizar as pequenas e médias produções.
— Vai acontecer uma elitização muito grande. Só quem estiver completamente patrocinado vai poder praticar preços mais baixos e ficar em cartaz independentemente da bilheteria. Ele está promovendo uma dependência total e completa do patrocínio — diz Eduardo Barata, presidente da APTR, a Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro.
Daniela Amorim, do Projeto_ENTRE, que ocupa o Espaço Sérgio Porto, diz que vai sobrar para o produtor.
— É sensacional que o carioca possa ter desconto, mas quem vai pagar a conta ?
O ator Marcelo Serrado também acha que deveria haver um subsídio.
— O certo seria : “O que vocês perdem nós vamos pagar a vocês.” Faço meu stand up “Tudo é tudo, nada é nada” sem patrocínio. Se fosse em teatro público, não poderia. Preciso da bilheteria. Como fazer para pagar técnicos, atores ?
Produtores se queixam ainda de falta de diálogo.
— Essa medida poderia ter sido discutida. A classe artística não é consultada sobre coisas que dizem respeito diretamente a ela — diz Daniela Amorim.
O secretário Sérgio Sá Leitão se defende:
— Se os produtores forem pragmáticos e fizerem as contas verão que haverá ganho de público e aumento da receita.
A produtora Andrea Alves, da Sarau, entra em cartaz com o musical “Gonzagão — A lenda” dia 30 de maio no Carlos Gomes, que ficou fora da medida que fixa o preço médio máximo em R$ 40, junto com o Imperator. A alegação é que os dois abrigam espetáculos de grande porte, com grandes custos de produção. Ela diz :
— Se eu estreasse em outro teatro, teria que rever todas as minhas contas. Tenho em média 70% dos ingressos em meia-entrada. Se tivesse que virar quase 100%, isso faria uma grande diferença.
Jonas Klabin esclarece um ponto relativo ao preço médio máximo dos ingressos.
— Todo dia eu tenho vários preços de ingressos, que vão de gratuitos a R$ 100, dependendo da área. Tem os de graça, distribuídos a alunos da rede pública. Tem os meus convites. Tem os a R$ 20, que são os ingressos promocionais, para os primeiros que chegam à porta. E tem os de R$ 80, R$ 90 e R$ 100. A média de tudo é que tem que dar R$ 40.
Hoje, em média, 80% dos ingressos são meia-entrada. Os produtores não poderão manter o preço, senão a receita cairá brutalmente.
Na terça, será votada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara a lei que destina o teto de 40% da lotação dos espaços para a meia-entrada. Depois, ela vai para o Senado.
— Quando estamos quase conseguindo resolver a questão da meia-entrada na esfera federal, a prefeitura dá essa rasteira — diz Marcelo Serrado.