Alguma vez na vida você já ouviu “Versão Brasileira – Gota Mágica, São Paulo”. Nem que seja vendo anime na Manchete ou baixando episódio de Guerreiras Mágicas de Rayearth dublado né? Então, a Gota Mágica era onde 11 entre 9 animes eram dublados durante a década de 90. Eles gravaram Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Dragon Ball e muitas outras pérolas que fazem os nostálgicos acharem que o tempo dos Mamonas Assassinas era melhor que hoje. E por trás desse estúdio marcante havia a direção de Mário Lúcio de Freitas, que é o entrevistado de hoje do Mais de Oito Mil. E essa entrevista é especial, sabem por quê? Porque eu decidi me abster de todo e qualquer comentário sobre o que o nosso entrevistado falou! Dessa vez, cuidei apenas de formatar o texto e de selecionar adequadamente a melhor imagem para cada resposta, deixando que o leitor atento tire suas próprias conclusões do entrevistado. E lembrando que eu não altero UMA VÍRGULA do que os convidados falam. Então vamos começar esse bate papo e não me desapontem!
Mara – A primeira grande produção japonesa aqui no Brasil foi Cavaleiros do Zodíaco, e foi dublada pela Gota Mágica. O anime foi mandado sob encomenda para a empresa ou a Gota Mágica pegou a série porque ninguém mais pegou?
Mário – Na realidade, foi a primeira dublagem da Gota, que foi indicada por alguém. Não sei até hoje quem foi esse louco que indicou (rsrsrs). Poderia ter dado zebra. Mas como a Samtoy insistiu, pegamos, né?
Mara – Na dublagem de Cavaleiros, Gilberto Baroli fazia os vilões, seu filho Hermes fazia o Seiya e a sua filha fazia a Saori. O que você tem a dizer sobre o nepotismo na política brasileira?
Mário – É muito forte. Inclusive, o curso de direção de dublagem do Baroli parece que foi feito em Brasília. Família que fatura unida permanece unida (rsrsrs). Mas, a bem da verdade, quem escalou o Hermes e a Letícia fui eu e não ele. O Baroli nem queria que eles dublassem a série, para não levantar suspeitas (rsrsrs).
Mara – A dublagem de Cavaleiros tinha golpes que mudavam de nome a cada episódio, dubladores que eram trocados e senhores de idade fazendo a voz de pessoas jovens. Pode citar o nome do culpado para que possamos colocá-lo no Macumba Online? Obrigada.
Mário – O próprio Baroli. Talvez para confundir (rsrsrs). O que ocorreu mesmo é que a série veio para o Brasil já dublada em espanhol, e acho que esses enganos já haviam acontecido. Não sei se de propósito ou não.
Mara – Em algumas empresas, os funcionários costumam fazer piadinhas internas e pequenas zoações. Por que, sempre que aparecia um personagem de sexualidade suspeita, vocês colocavam o Marcelo Campos pra dublar? Foi o Misty, foi o Jabu, foi o Mu, foi o General Blue…
Mário – Pra ficar mais real (rsrsrs). Mas essa pergunta somente o Baroli poderá responder. Ele que o escalava (rsrsrs). Mas falando sério, o Marcelo faz bem qualquer personagem. É um excelente profissional.
Mara – A história da Gota Mágica tem muitas lendas urbanas. Dizem os boatos, por exemplo, que Sailor Moon teve uma pausa no meio da dublagem por causa da greve dos dubladores. Essas histórias são verdades ou é tudo intriga da imprensa Sônia Abrão?
Mário – Aconteceram, sim, greves de dubladores, mas não me lembro se foram durante a dublagem de Sailor Moon.
Mara – Vocês compuseram músicas que, infelizmente, ouvimos até hoje de fãs em eventos de anime. Isso se deve à qualidade das músicas compostas pela Gota Mágica, pelo atenuado nostalgismo dos fãs ou os dois?
Mário – Acho que aos dois (rsrsr). A qualidade das músicas da Gota, realmente, ajudaram. Veja que séries como Punk, a levada da breca; Chaves; Ursinhos Carinhosos; Jem e as Hologramas, Dragon Ball, etc. estão em nossa memória até hoje. Não é por acaso, né?
Mara – Falando nas músicas, vocês produziam também CDs das séries. Tirando o de Cavaleiros do Zodíaco, os CDs de Super Campeões, Guerreiras Mágicas e outros do gênero venderam ou apenas somaram despesas a essas séries que já não tinham uma audiência muito boa?
Mário – Por incrível que parece, não é que venderam (rsrsrs). Fizemos também Bananas de Pijamas, Chaves, US Mangá, Turma da Mônica…
Mara – A Larissa Tassi gravou a primeira música de Cavaleiros do Zodíaco e, muitos anos depois e já adulta, ela foi chamada para gravar novas músicas para a série. Você se sente orgulhoso por ter descoberto esse talento ou dá sua risada maligna porque ainda temos que aturar ela em pleno século XXI?
Mário – Acho que as duas coisas (rsrs). Mas na realidade a Larissa e seu amigo gravaram a segunda abertura e não a primeira, e foram descobertos pela Sony e não por mim. Eu produzi a parte de São Paulo (Marin, Shina, Mestre do Mal, Rap do Zodíaco e Força Astral).
Mara – E agora a única pergunta sem piadinhas desta entrevista: por que motivos a Gota Mágica fechou as portas?
Mário – Essa é uma pergunta que todos me fazem, já que o estúdio fez muito sucesso. Acontece que os motivos que fizeram a empresa fechar suas portas foram particulares e não profissionais. Ela era uma empresa familiar, onde vários integrantes de uma família trabalhavam, e esses integrantes abandonaram o barco, me deixando sozinho. Eu não poderia gravar voz de mulher, de criança, etc. Ficou impraticável. Outro motivo também foi que o estúdio foi montado para ser utilizado por três empresas, que não eram sócias, e essas duas outras empresas não emplacaram e deixaram com a Gota uma estrutura muita grande para uma firma só. Foi isso. Mas o que dá para ver hoje em dia é que os fãs sentem saudade do estilo de trabalho da Gota. Ela era realmente diferente.
Mara – A Gota Mágica era chamada de Casa dos Animes. E aí fechou. A Parisi Vídeo era chamada de Casa dos Animes. E aí fechou. A Álamo começou a ser chamada de Casa dos Animes. E aí fechou. Trabalhar com anime dá tanta urucubaca assim?
Mário – Talvez a gente não cuidasse das mandigas com tanta eficiência como fazíamos com os trabalhos (srsrsrs). Mas, na verdade, o sucesso incomoda, mesmo, e isso provoca muita energia negativa nos concorrentes. Também, para quem ainda não sabe, dublagem é uma atividade que dá pouco lucro. Se você não fizer como fazia a Gota, que buscava em atividades paralelas outras formas de rendimento, fazendo discos, comerciais, disc 900, shows em circo, etc. dá zebra, mesmo. Outra coisa que ocorre com a dublagem é que os estúdios nivelam por baixo a produção. Acham que somente abaixando o preço é que pegam serviço, o que não é verdade. O que aumenta a procura é a qualidade e não o preço baixo.
Mara – Obrigada pela entrevista, Mário Lúcio de Freitas. Tem algum recado para os leitores do Mais de Oito Mil?
Mário – Agradeço muito pela oportunidade e gostaria de dar os parabéns pelo blog. É bem legal e criativo. O recado a dar é esse: faça um trabalho honesto, bem feito, de qualidade, que ele será sempre lembrado com carinho. Essa era a filosofia da Gota.