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(entrevista com Zico)
Quais são as dificuldades do cargo de diretor executivo ?
É a questão da autonomia do departamento, devido ao Flamengo ser uma instituição, e, não, uma empresa. Numa empresa você tem mais agilidade e departamentos separados. É tudo muito mais fácil. No Flamengo, você tem uma situação diferente. A gente vem batendo na tecla da criação do Fla Futebol e da autonomia do departamento de futebol. É importante você saber com o que pode contar. Eu, por exemplo, se quero fazer uma transação, tenho que passar os valores todos. Tudo vaza com facilidade. Em qualquer tipo de transação, tem muita gente envolvida.
Já cometeu algum erro como diretor executivo ?
Devo ter errado. Errei muito como jogador também. Não posso me julgar em dois meses. Quando acabar a minha história, a gente vê como foi.
Você está enfrentando oposição dentro do clube ? Alguém está interferindo no seu trabalho ?
Não. Ninguém vai interferir no meu trabalho. Uma repórter me entrevistou outro dia e disse que na arquibancada as pessoas não falavam do time. Falavam que o Zico fez isso ou aquilo. É aquela coisa: eu sabia que quando viesse para cá, ia gerar muita expectativa, mas as coisas não acontecem de uma hora para outra.
Você sempre falou que não seria técnico do Flamengo. E como dirigente, a torcida pode se voltar contra você ?
Pode. E já estão acontecendo cobranças no estádio, quando há o envolvimento da emoção. No dia a dia, as pessoas até que estão entendendo. Mas cobram resultado, lógico...
O que você ouviu do seu porteiro ? Do seu garçom ? Do jornaleiro ?
A primeira coisa que pedem é atacante. É a carência de gol. Isso acontece em função do que o clube perdeu, a saída dos jogadores que faziam os gols. Quando eu parei de jogar, o Flamengo tinha um timaço, mas sentiu a perda de um ídolo. Sofreu muito até se reajustar novamente. Levou tempo. Naquela época, havia cobrança, mas não como hoje, pelos valores que estão em jogo na parte financeira.
Está feliz ?
Estou. Se não, não estaria aqui. Peguei uma turbulência, mas disposição e confiança para enfrentar problemas eu sempre tive na minha vida, como atleta ou técnico. Não vai faltar força. Meu desejo era voltar ao Flamengo para tomar conta da estrutura da base. Não era minha intenção estar numa situação dependendo de resultado. Mas muitas vezes, para realizar uma coisa, é preciso estar à frente de outra.
Além da conquista de títulos, qual é a sua meta como dirigente ?
Não vou abandonar a possibilidade de o Flamengo contar com um time forte, mas meu legado maior pode ser deixar uma estrutura na base. A gente pode até não ganhar nada, mas espero deixar uma estrutura que em alguns anos possa vencer. Minha tristeza foi grande ao encontrar o que encontrei na base.
O que encontrou ?
Encontrei uma situação em que os profissionais não tinham nem lugar para trocar de roupa. Isso já basta, né ? A comissão técnica não tinha onde se vestir!!! É difícil trazer jovens para morar no Flamengo. Não existia acomodação. Só projetos, projetos e projetos, mas sem nenhuma atenção à base. O Rogério (Lourenço) ficou três anos trabalhando na base, observando jovens do Brasil inteiro, mas nunca foi consultado para nada. Hoje, as pessoas têm autonomia para tomar atitudes.
É um sonho a construção de um estádio ?
Não, por causa da ligação do Flamengo com o Maracanã. Considero o Maracanã o estádio do Flamengo. E, com um time forte, mesmo num jogo de menor porte, o Flamengo tem condição de botar 30 mil pessoas no Maracanã. Não vejo necessidade. Vejo, sim, a necessidade de o Flamengo ter um centro de treinamento, uma concentração e um local para os garotos fazerem os testes. E ter profissionais no Brasil olhando garotos.
Sua vida tem se resumido ao Flamengo ?
Quando não estou na Gávea, vou para o Ninho, para acompanhar as outras categorias. Voltei a chegar em casa às oito, nove da noite, e normalmente saio para trabalhar às 8h30 da manhã. Lógico que a Sandra está sentindo falta. Nesse período, não está dando tempo para fazer minha ginástica. Jogo minhas peladas, mas não faço minha ginástica. Deixei de lado. Tenho até que fechar a boca. E, nos dias de jogo fora do Rio, viajo de manhã, almoço com o time e fico para o jogo. Sabe como é... O trem ainda está andando.
Com dois netos, você ainda pensa em trabalhar fora do Brasil ?
Depende. Para sair, tem que ser uma coisa muito motivante. Um desafio muito grande, num país em que eu possa ter uma vida legal. E eu vou para o terceiro neto. Outro homem : vem aí o Antônio, filho do Thiago. Nasce no início de outubro.
É difícil trabalhar no futebol e não se relacionar com o presidente da CBF ?
Não dependo da CBF. Minha questão com o Ricardo Teixeira é que quando a Copa de 98 estava no fim, ele me convidou para participar do projeto de trazer para o Brasil a Copa de 2006. Viajei pelo mundo com outras pessoas que acreditavam naquela missão. Quando estava em Luxemburgo e ia fazer em seguida a apresentação na Fifa, ele telefonou para uma das pessoas da delegação e disse que a gente podia voltar porque o Brasil tinha desistido. Não iríamos mais à Fifa. O mínimo que ele podia fazer era dar um pulo ali e explicar a mudança de planos para a gente, que trabalhou quase dois anos naquilo. Ele mandou um recado por um assistente. Fui embora. Acabou. Nunca mais tive contato com ele.
Trabalharia com ele de novo ?
Não. Perdi a confiança, né ?
A relação na Copa de 98 foi ruim ?
Ele sempre nos deu carta branca para trabalhar. A gente tinha total autonomia para fazer as coisas. Não tenho nenhuma queixa em relação a isso. Eu até cobrava mais a participação dele como presidente. Que fosse mais à concentração, falasse com os jogadores. Achava importante a presença dele.
Por falar em 98, como você fez as pazes com o Romário ?
Falei pra ele : “Não posso abrir mão do processo, porque isso envolve muita coisa. Quase 10 anos se passaram e isso tem que ter um final”. Falei pra ele: “Não tenho nenhum interesse em tirar um centavo de você. Mas, e os advogados que estão trabalhando por isso ? Tem que ter um vencedor e um perdedor”. Acho que ele levou 10 anos para compreender. As pessoas ficam naquela picuinha besta, boba, de 82 contra 94. Isso não faz o menor sentido. Jogaram fumaça, ele entrou na onda e talvez eu também tenha entrado. A imprensa alimentou aquela história de que a seleção de 82 jogou bem e não ganhou, e que a de 94 jogou mal e ganhou. Uma ideia que não tem a ver.
Quer dizer que o Romário vai ficar mais pobre ?
Não (risos). Não vai, não.
Vai votar nele ?
Não vou votar no Romário porque eu vou votar no Adílio, né ? Pô... (risos).
E para presidente ?
O único voto declarado é o do Adílio, tá bom ? (risos).
Por que esse distanciamento da política ? Você fez parte do governo Collor...
Nem considero meu trabalho político. Fiz um trabalho para o esporte. Era um cargo político, mas eu não tinha ambição nenhuma. Talvez, o Collor tivesse a intenção de me aproveitar politicamente. Queria fazer eu gostar de política e vir candidato a prefeito ou governador do Rio, para fazer base aqui. Algumas pessoas chegadas a ele ficaram me sondando em relação a isso. Tinha um cara que ia nos jantares e trocava a plaquinha que indicava o lugar de cada um, só para sentar do meu lado e ficar no meu ouvido : “Vem como governador, que eu faço a tua campanha”.
Não pensa em entrar para a política ?
Se amanhã eu for pipoqueiro ou vendedor de cachorro quente é porque estarei tendo prazer. Estar no futebol me dá prazer. Mas política não é a minha praia.
Você pensou em trazer o Jorginho para o lugar do Rogério Lourenço ?
Não. Nada disso. Adoro o Jorginho, mas não houve isso. Experiente, o Rogério não é. Rogério é um treinador jovem, com passagem boa pela base do Flamengo e, por isso, chegou à seleção brasileira. Ganhou uma oportunidade que estou mantendo.
Mas, você tentou trazer o Felipão...
O Felipão é um nome que está acima do bem e do mal. Até para o Rogério teria sido importante. Mas o Rogério está se comportando bem. A situação não depende dele. Esse não é o time dos sonhos do Flamengo. Quando você perde jogadores importantes, o resto do time sente isso.
Descarta a troca de técnico ?
A gente não tem que ficar falando sobre isso. Você não troca treinador só por resultado. Troca também quando vê que há resistência por parte da torcida e jogadores, quando o ambiente não está bom. Mas foi uma sacanagem sem tamanho o Willians, contra o Vasco, ter pedido para sair, o Rogério tirá-lo e o pessoal apupar. Até falei com os jogadores: “Quando alguém pedir pra sair, faça o gesto de forma que todos percebam”.
O Flamengo precisa de quê ?
Precisa de alguém que bote a bola dentro do gol. Se tivesse botado a bola no gol, em dois jogos teria mudado. Estava lá entre os quatro. E teve oportunidade para isso.
Você vai contratar esse cara ? Algum nome forte ?
A gente está tentando. Mas só vou dizer pra você quem é quando já estiver com o contrato assinado. É alguém que tem a possibilidade de se tornar um ídolo.
Dunga saiu-se bem na Copa ?
Acho que não. Não vou falar do campo, porque não gosto de analisar. Mas deu a impressão de que queria resolver tudo e não somente a parte técnica, que diz respeito a ele. Acho que isso acontece em função do Ricardo Teixeira. Ele dá essa condição para o técnico.
O Ricardo Teixeira deveria se expor mais ?
Sempre. Ele é o presidente. Quando é contratado, o treinador tem que saber o que a CBF quer. Mas o futebol não é a especialidade do Ricardo. Então, ele bota uma pessoa lá que vai cuidar do futebol. Não é a especialidade dele.
Qual é, então, a especialidade dele ?
Não sei. Não é o futebol. E, como é que você vai ver se as outras pessoas são boas se você é o dono absoluto disso tudo? Esse continuísmo não é bom.
Quem vai ganhar o Brasileirão ?
O time que gosto de ver jogar é o Santos, que era o favorito antes de ser mutilado. Mas vai começar a perder jogadores. O Flamengo não está entre os favoritos, mas tenho confiança de que vai ficar. Minha meta é lutar pelo título.
O Flamengo teve casos recentes de indisciplina. O que deve ser feito ?
Acho que devem existir algumas cláusulas no contrato que possam preservar o clube. Levei isso para o departamento jurídico. Por exemplo, sem autorização do clube, o jogador não deve jogar pelada. O clube deve colocar essa proibição em contrato. Isso está começando a ser feito.
O caso Bruno causou prejuízo ao clube ?
Lógico que sim. Mas o prejuízo maior é não poder contar com ele, né? Esse é o prejuízo maior, pelo grande goleiro que ele é. Sofri muito, muito, muito... Conheci-o pouco, falei com ele umas quatro vezes. Sabe aquele depoimento que ele deu no avião, quando estava indo preso? Ele havia comentado comigo exatamente aquelas coisas que foram ao ar.
Você acredita nele ?
Acredito. O tempo todo sentado naquela mesa ali, ele disse pra mim que não tinha nada a ver com o caso e que o garoto foi colocado na mão dele e ele não sabia o que fazer. Disse que pediu ajuda às pessoas, no sentido de como fazer para ficar cuidando da criança. Queria fazer o exame.

O que o Bruno faz mais falta (além das defesas de pênaltis) é na saída de bola, ele sabia jogar com os pés, coisa que o bom goleiro Marcelo "toma no lombo" não sabe.