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A Record planeja aproveitar uma determinação da Lei das Eleições para promover uma série de mudanças em suas afiliadas. Na tentativa de padronizar a sua programação local pelo país e de ter maior controle das suas parceiras regionais, a emissora está se movimentando para extinguir uma série de telejornais regionais que devem perder os seus apresentadores a partir de julho, mês em que pré-candidatos ficam proibidos de apresentar ou participar de programas de rádio e televisão, sob pena de pagamento de multa e do cancelamento da candidatura do comunicador.
Para a diretoria do canal, a desvinculação midiática obrigatória é uma deixa perfeita para promover mudanças sem ter que lidar com indisposições e tampouco pagar eventuais multas de rescisão contratual. Diferentemente do que costuma acontecer nas emissoras próprias, diretamente subordinadas ao comando de São Paulo, boa parte dos comunicadores das afiliadas optam por não se candidatarem pelo Republicanos, partido ligado à Universal, e procuram outras legendas para disputar o pleito, fato que tem incomodado os executivos da empresa há vários anos.
A reportagem do TV Pop apurou que a situação dos apresentadores/candidatos ficou insustentável desde as eleições de 2020: naquele ano, Vitor Valim se desvinculou da TV Cidade Fortaleza, em que comandava o Cidade 190 na hora do almoço, na tentativa de se eleger prefeito da cidade de Caucaia, no interior do Ceará. Ele, no entanto, se filiou ao PROS, relegando o Republicanos apenas ao posto de vice da chapa. O jornalista conseguiu se eleger no 2º turno, com 51,08% dos votos válidos, e não voltou mais ao comando do telejornal local.
O telejornal comandado por Valim durante 16 anos é um dos alvos da reformulação planejada pela Record. Em setembro do ano passado, a emissora renovou o seu contrato de afiliação com a TV Cidade por mais dez anos, mas deixou explícito que gostaria de ter mais influência nos slots de programação regional — e já tem demonstrado isso há alguns meses, com o fim do Ceará no Ar e a estreia do Balanço Geral Manhã, tal qual aconteceu em São Paulo em 2019. Agora, o Cidade 190 deverá acabar após 21 anos justamente para ceder espaço a uma versão maior do Balanço Geral.
Evaldo Costa e Márcio Lopes, âncoras do programa, são explicitamente pré-candidatos: a dupla já tentou se arriscar na política anteriormente e, dessa vez, deverão tentar a sorte como deputados estaduais. Ambos, no entanto, não são filiados ao Republicanos: Costa disputou a eleição de 2020 pelo PDT, enquanto Lopes estava no PROS — ambos tentaram se eleger como vereadores pela capital cearense, mas acabaram derrotados e tiveram um número residual de votos, diferentemente de Ronaldo Martins, do Cidade Alerta regional, que se elegeu justamente pelo partido da IURD.
Oficialmente, a TV Cidade deverá justificar o encerramento do Cidade 190 — previsto para acontecer antes mesmo do prazo de veto da Lei das Eleições — com o desgaste do gênero policial nas emissoras de Fortaleza. As atrações “espreme que sai sangue” perderam fôlego na audiência com o passar dos anos e deixaram de ser competitivas, e a afiliada da Record foi a última dos grandes canais da região a insistir no formato. Há quase dois anos, a TV Jangadeiro/SBT extinguiu o Barra Pesada após 20 anos no ar. No mês passado, a regional TV Diário acabou com seu núcleo policial.
Em paralelo ao desgaste do 190, o Balanço Geral passou a ganhar fôlego na região com o até então atípico formato de revista eletrônica. Em Fortaleza, o programa é comandado por Erlan Bastos e é a atração regional mais assistida da Record, rivalizando na disputa pela liderança com a TV Verdes Mares, afiliada da Globo. A atração deverá ganhar novidades em paralelo com o aumento de sua duração: uma das novidades discutidas é um quadro de reforma de casas, nos mesmos moldes do que Gugu Liberato (1959-2019) e Celso Portiolli faziam em seus programas dominicais.
Além do Ceará, as mudanças da Record também devem atingir a Paraíba: a emissora tem negociado com a TV Correio a extinção do Correio Manhã e do Correio Verdade para finalmente passar a contar com o Balanço Geral em todos os estados do país. Levando em consideração as geradoras de capitais, apenas a afiliada de João Pessoa não produz uma versão regional da franquia, sob a alegação de que seus produtos locais eram suficientemente fortes por si só. Eles, no entanto, também tem perdido fôlego na disputa pela preferência dos telespectadores.
Por lá, também pesa o fator política. Nilvan Ferreira, titular do vespertino Correio Verdade, fez oposição ao Republicanos nas últimas eleições: ele disputou a prefeitura da capital paraibana pelo MDB e foi derrotado no 2º turno para Cícero Lucena, do PP, que fazia parte da chapa Pra Cuidar de João Pessoa, que contava com a aderência do partido da Universal. A afiliada da Record só o aceitou de volta em virtude da transferência de Samuka Duarte, até então âncora do telejornal, para a TV Arapuan, parceira da RedeTV! na região. Dessa vez, porém, sua saída deve ser definitiva.
A Record não se comunica com a reportagem do TV Pop e, portanto, não se manifestou sobre os seus estudos de programação para o segundo semestre deste ano.