RENATO MAURÍCIO PRADO - O GLOBO
O mal maior
Joel errou ao recuar covardemente o time no segundo tempo ? Indiscutível. Uma vez mais o Flamengo cansou e, de bico aberto, entregou o ouro ? Claro. Ronaldinho Gaúcho acertou dois ou três bons passes, mas na hora H desapareceu ? Que surpresa ! O miolo de zaga é desastroso e a cada jogo, González se parece mais com os fraquíssimos Wellinton e David Braz ? Triste constatação. Nenhum desses, entretanto, é o maior problema rubro-negro. Todos podem ser, no máximo, consequência. De que ? De um clube perdido, sem comando, dentro e fora de campo, há quase três anos.
E o que liga os fracassos de Andrade (em 2010), Rogério Lourenço, Silas, Vanderlei Luxemburgo e, até o momento, Joel Sanatana ?
Apenas uma pessoa :
Patrícia Amorim.
Que a cada dia age mais como política que é (vereadora em busca de um novo mandato em outubro) e menos como presidenta (que também concorrerá a reeleição, no final do ano).
De Andrade a Joel, passando inclusive por Zico (trazido com pompa e circunstância para ser o homem forte do futebol),
a queixa é uma só : falta de apoio. De quem ? Patrícia Amorim.
Todos, sem exceção, se sentiram atropelados por membros da diretoria que nem sequer fazem parte do departamento de futebol, como, por exemplo, o vice de finanças, Michel Levy - aquele que voltou de Moscou dependurado no ombro de Vágner Love, como autêntico papagaio de pirata.
Inexperiente como dirigente, Patrícia trouxe para a administração do Flamengo todos os vícios da "Gaiola de ouro" (apelido da Câmara de Vereadores do Rio).
E se isolou com um grupelho de ex-colaboradores da administração Edmundo Santos Silva, de tão triste lembrança - dispara um dos muitos ex-cartolas que chegaram a apoiá-la, mas agora se dizem traídos e decepecionados.
E os problemas não se restringem ao futebol. Além de ligações de caráter duvidoso, como as que fez com a Locanty (uma das empresas flagradas, pela reportagem do Fantástico, oferecendo propina para conseguir contratos com a UFRJ),
Patrícia adotou práticas altamente discutíveis, como a adoção de cartões corporativos para que seus pares façam despesas que são pagas diretamente pelo clube.
Quem me garante que tais gastos se restringem a coisas de real interesse do Flamengo ? - condenada o ex-presidente Delair Dumbrosck, derrotado por ela nas últimas eleições.
Os agrados ao presidente do Conselho Fiscal, o ex-chefe de torcida Capitão Léo, também são alvo de censura contundente. Para "ganhar" a simpatia deste,
Patrícia lhe entregou o comando do novo departamento de futebol de areia.
- É ou não é uma espécie de mensalão disfarçado de atividade esportiva ? - fuzila mais um de seus críticos, lembrando que o futebol de areia do Fla tinha o patrocínio da Locanty.
E a escolha do Cascão (filho do ex-técnico Cláudio Coutinho e atual vice de futebol). Pode haver demagogia maior ? Qual é a experiência dele no futebol, além de acompanhar o pai quando menino ?
E o interesse pelo Adriano ?
- Mais um lance pra arquibancada ! - condena outro desafeto.
O maior de todos os pecados acabou sendo a contratação de Ronaldinho Gaúcho. Ao contrário do que se esperava, o Dentuço não correspondeu as expectativas : pouco brilhou em campo e não trouxe para o clube os patrocinadores, que, se acreditava, seu nome poderia atrair.
Pior : seu comportamento altamente antiprofissional (desde os primeiros dias, é importante que se ressalte) contaminou boa parte do elenco, tornando o Flamengo um time sem garra, sem comprometimento, sem nada. Até alguns jovens da promissora geração que conqusitou a Copinha, em 2011, já exibem uma postura blasé dentro de campo e irresponsável fora dele.
Nada mais previsível : quem é o grande ídolo e maior espelho dessa garotada ? Pois é...
O encanto acabou. A torcida não aguenta mais Ronaldinho que, por sua vez, se diz cansado das cobranças e da vigilância sobre suas atividades na noite. Nem o Flamengo, nem Assis, irmão e procurador do jogador, admitirão oficialmente, mas o que já se busca é uma saída honrosa para o clube e para o atleta. Preferencialmente uma transferência para o exterior.
Se o Fla se livrar de Ronaldinho aí mesmo é que não faz sentido algum insistir com Adriano. Chega de dinheiro jogado fora.