Barbano escreveu: ↑27 Dez 2024, 19:09
Uai, pode coexistir, assim como pode coexistir com queda de demanda. A questão é se existe alguma correlação entre as duas coisas. Para existir correlação,você tem que partir do suposto que o que restringe o consumo é o tempo, e não a renda. O que não faz sentido para a realidade brasileira, com poupança baixa, endividamento e inadimplência altos.
Sem redução da renda nominal, com provável redução da renda real. Afinal, não existe almoço grátis. Se o custo com mão-de-obra por hora aumenta, isso de alguma forma é repassado.
Existem várias correlações entre as duas coisas (redução da carga horária na CLT e aumento da demanda por consumo). O
aumento do tempo livre é somente uma das correlações, e bem óbvia, no caso do consumo que exige a presença física do cliente (serviços de bairro como manicure, tatuador, barbeiro etc... lembrei de um ótimo exemplo soteropolitano que o paulistano talvez desconheça: trançadeira afro, que leva 4 horas para terminar... o empregado(a) 6x1 tem grana, mas não arranja tempo para fazer as tranças).
....Do jeito que você fala sobre renda e dívidas das famílias, até parece que o consumo é muito baixo no Brasil. Já demonstramos diversas vezes que o setor de serviços é o que mais emprega e é disparado a maior parte do PIB (60% ou mais). Esses serviços são prestados para chineses, americanos, guatemaltecos, ou para... brasileiros? Parece até que não existem serviços de bairro hoje, devido à "poupança baixa, endividamento e inadimplência... Mas a realidade é que:
NOTÍCIAS
Consumo das famílias cresce 1,3% no 2º tri, aponta IBGE
03/09/2024
O consumo das famílias registrou alta de 1,3% no segundo trimestre de 2024 ante o primeiro trimestre, informou nesta terça-feira (3), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com o segundo trimestre de 2023, o consumo das famílias apresentou avanço de 4,9%.
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/m ... onta-ibge/
Outra correlação é o
aumento do mercado consumidor. O empregado CLT poderá consumir mais dentro do próprio país, comprando de outro brasileiro que também poderá comprar de outro brasileiro, e assim por diante. Comprar tênis na loja do bairro em vez de comprar na Shopee (existem ainda muitas lojas de sapato, apesar de você não frequentar). Comprar uma bicicleta para pedalar no tempo livre, como os empresários dos EUA perceberam no início do Século XX (talvez você não pedale... os trabalhadores 6x1 também não). Tudo isso já foi dito aqui, com os devidos links.
Ou seja, se você trabalha com comércio ou com serviços, vai aumentar a clientela e vai ter mais renda! E tendo mais renda, também poderá consumir mais. Como um islandês comprando do outro. Isso é um aumento do mercado consumidor. Obviamente, não estamos falando de quem trabalha com agro ou indústria.
Com o aumento do mercado consumidor (aumento da demanda), é esperado, sim, que ocorra aumento de preços por aumento de demanda. Se muitas pessoas querem comprar o mesmo produto, e num primeiro momento não há oferta de produtos para todo mundo (gerando filas no salão de beleza...), é óbvio que o preço vai subir.
E claro, o preço também pode subir pelo motivo que é sua obsessão aqui: repassar custos de mão-de-obra ao consumidor. Primeiro, isso só faz sentido em setores que empregam por CLT. O seu tênis chinês produzido em Bangladesh, comprado no site da Shopee, trazido por caminhoneiro que roda 12h tomando arrebite e que ganha por frete (não por CLT), obviamente não terá aumento do custo de mão-de-obra, concorda? E os serviços de bairro, informais e sem CLT, também não terão.
Nos casos dos serviços que realmente contratam por CLT (supermercados, hotéis, farmácias e shoppings), que têm lucros bilionários, existe a opção de não contratar mais ninguém. Adequar horários a uma baixa demanda (cenário imaginado por você), ou contratar mais gente devido à alta demanda (cenário imaginado por mim).
Devido à concorrência de mercado, existe um limite para aumento de preços. Se um concorrente resolver não repassar o novo custo ao consumidor (até porque os lucros já são bilionários, e a mão-de-obra não é o maior custo da empresa, que geralmente é o estoque), terá vantagem na disputa pelo consumidor.
Aumento de custos e de preços (caminho defendido aqui por mim) é o caminho da formação do mercado consumidor na Inglaterra, na Suécia, na República Tcheca etc. Sabe quanto é uma garrafa de água na Europa? Também é o caminho da China, do Japão, da Coréia do Sul etc. E claro, dentro do Brasil, também é o caminho das metrópoles, especialmente São Paulo capital.
Redução de custos e de preços (caminho defendido aqui por você) é adotado por qual país? Tem algum exemplo bom?
O problema da escravidão seria somente moral? Ou você consegue enxergar o problema da mão-de-obra barata que não consome? Se voltarmos com a escravidão, teremos esse "paraíso de preços baixos"... Mas quem vai comprar?
E outra correlação positiva entre a melhoria das condições de trabalho e o aumento da demanda por consumo é
o retorno do prestígio do trabalho como fonte de renda. Se o trabalho volta a ser visto como algo que vale a pena, tende a reduzir os gastos em bets e Tigrinho, ameaças ao consumo que fazem sucesso justamente por representarem sonhos de dinheiro fácil - já que o trabalho tem se apresentado como um caminho ruim, especialmente pelo 6x1.
Barbano escreveu: ↑27 Dez 2024, 19:09
Hoje o padrão para quem trabalha em 5x2 é trabalhar 8h48 por dia, que é uma jornada diária mais longa do que a de quem trabalha em 6x1. Então hoje é sim mais difícil conciliar trabalho com estudo para quem trabalha em 5x2 do que para quem trabalha em 6x1.
Essa jornada de 8 horas de seg-sex e 4 horas aos sábados é mais comum no comércio de rua. Mas não é a regra. Em supermercados, shoppings, lanchonetes, etc é comum o 6x1 com 7h20 por dia. Um exemplo é essa cookieria aqui de São Carlos, com vagas e jornadas diversas:
https://www.instagram.com/stories/highl ... 258959291/
Nas vagas de 44 horas tem 6x1 com 7h20, 5x2 com 8h50, e jornadas parciais, com remuneração menor que o salário mínimo (4x3 com 2 dias trabalhando 8h50 e 2 dias trabalhando 4h00; 2x5 com jornada de 8h48).
Peraí... Em que setor funciona esse padrão de 5x2 por 8h50? Tem algum exemplo?
Primeiramente, a CLT coloca como jornada máxima de trabalho 8 horas por dia (com possibilidade de 2 horas extras), salvo se houver acordo coletivo. Por exemplo, na jornada dos vigilantes e porteiros, trabalha-se 12hx36h por acordo coletivo. Ou seja, apesar de trabalhar 12 horas seguidas, é uma escala melhor que o 6x1, pois tem folga dia sim, dia não.
Se tem empresa botando empregado CLT pra trabalhar 8h50 todo dia, sem pagar hora extra, é caso para processar. Salvo se houver acordo coletivo para isso.
Imagino até que você esteja falando de vagas de informalidade, fora da CLT, que obviamente não entram na discussão do fim do 6x1.