O GLOBO
Apesar do aumento da programação cultural e do número de escritores convidados (30% a mais que na última edição), os expositores da 18ª Bienal do Livro do Rio, iniciada quinta-feira, sentiram o efeito da crise em seu primeiro fim de semana (o evento segue até o próximo domingo).
Grupos editoriais tradicionais, como Record, Companhia das Letras, Sextante e Autêntica (a Rocco e a Intrínseca não concluíram seu balanço de vendas até o fechamento desta edição), estão decepcionados com o fluxo de público no Riocentro e com o volume de vendas. Até o fim da tarde de ontem, projetavam uma queda de 15 a 30% das vendas em relação ao primeiro fim de semana de 2015.
— Já esperávamos uma diminuição, mas não tanto — diz Túlio Ormond, assistente comercial do Grupo Editorial Companhia das Letras.
— O público não está ruim, mas as vendas caíram. Muita gente circula pelo estande, mas reclama dos preços.
Pela alta movimentação em torno dos espaços que trabalham com pontas de estoque e vendem publicações a preços populares, é possível que os consumidores tenham trocado os títulos das editoras pelas promoções dos “saldões”.
O que é confirmado pelo diretor da PromoLivros, Cristian Eloy Mendes, que este ano só vendeu livros a R$ 10.
— Na edição passada trabalhamos com livros de vários preços, mas este ano resolvemos apostar apenas em exemplares com preço promocional — diz ele. — Fazemos várias feiras pelo país, esta é a tendência, as pessoas estão com menos dinheiro.
A gerente comercial da Autêntica, Judith de Almeida, vê uma diminuição significativa de público e culpa, além da crise econômica, uma menor presença de autores best-sellers internacionais na programação. Para ela, nem a estreia do BRT no evento, que facilitou o acesso do público, parece ter compensado a falta de estrelas estrangeiras.
— O evento está bem divulgado, a estrutura está boa e a aposta em autores nacionais é positiva, mas são os grandes nomes internacionais que costumam chamar multidões — pontua Judith, que participa de sua nona bienal como profissional do livro. — É sempre o primeiro fim de semana que sinaliza o resto do evento, então imagino que não mudará nos próximos dias.
Diretor de marketing do Grupo Editorial Record, Bruno Zolotar, por sua vez, espera uma virada a partir do feriado de 7 de setembro.
— Esse fim de semana concorremos com dias bonitos — lamenta ele. — Mas ainda há esperança de que mude na semana que vem.
Para tentar fugir da crise, as editoras fizeram um investimento pesado na sua participação na feira. Os estandes, que se tornam, a cada ano, uma atração em si, receberam até uma sala de cinema. Um dos mais concorridos no primeiro fim de semana foi o da Rocco. Casa dos livros do bruxo Harry Potter, a editora aproveitou os 20 anos da série e transformou o seu espaço num castelo de Hogwarts. Uma enorme fila tem se formado para tirar foto em uma vassoura.
Já a HarperCollins Brasil, que faz sua estreia na Bienal depois de ter se separado, no início deste ano, do Grupo Ediouro, montou um cinema no Riocentro. As sessões, a cada dez minutos, atraíram uma multidão, que deita no chão para assistir a um filme sobre a importância da leitura. De quinta a domingo, mais de oito mil pessoas passaram pela atração.
Uma das poucas a não se queixar dos números foi a LeYa/Casa da Palavra, que elevou a meta de vendas para o fim do evento. Em comunicado de sua assessoria, ela informou: “os quatro primeiros dias de Bienal têm se mostrado uma continuidade da edição de 2015, que foi de recuperação e ótimos resultados”. No sábado, a Leya promoveu a viagem ao Rio de 42 leitores de São Paulo, fãs de literatura fantástica, especialmente para conhecer o evento. E atribui o bom resultado ao investimento feito no público jovem.